quarta-feira, 19 de março de 2008

Bolinha azul


Não sei o que se passa com as pessoas hoje em dia, todos corremos sem saber ao certo para onde vamos nem para onde queremos na realidade ir. Talvez daqui a uns anos, 40, 50 anos olhemos para trás e ao analisarmos o início do século XXI poderemos chegar à conclusão de que a nossa geração, dos 20/30 anos foi de uma nulidade idealista completa; um hino ao niilismo passivo que nos embala como que um anestésico emocional e de desejos. Pode-se comparar o nosso tempo à grande depressão de 1929, a actual não tem a sua origem nas quedas das bolsas e não se resume exclusivamente a problemas económicos, a diferença entre as duas “crises” é que a actual não se resolve com uma retoma da economia. Vivemos numa época onde a ambiguidade de afectos e valores é visível transversalmente em todas a classes sociais, sexos, idades, religiões... pode o ser humano estar a atingir o fim da linha na sua evolução emocional? “Já não à amor como antigamente” suspiram os mais nostálgicos ou “antigamente é que era bom” reclamam os conservadores. Olhando para o nosso mundo e para quem o habita com um olhar sociológico pode-se rapidamente se chega à conclusão, estamos a viver numa época que tecnologicamente é avassaladora; desde o tecnofreak que compra o gadget topo de gama ao eremita que da sua caverna faz pesquisas online sobre receitas de bagas com raízes, todos nós vivemos sobre smog binário que lentamente vai corroendo a nossa identidade bio-psico-social, fazendo com que aos poucos nos deixemos de nos ver como seres orgânicos e sociais para passarmos a sentirmos algo digitais e centrados no prazer próprio. É óbvio que o caminho da humanidade é a evolução tecnológica, o problema é que esta evolução é directamente proporcional à falta de contacto entre pessoas, apesar de todos os meios comunicação existentes passamos a sentir a falta do feedback humano; coisas simples como o olhar nos olhos, ouvir um sorriso, o sentir a pessoa que está à nossa frente começa a fazer parte de um imaginário romântico do século XX. Hoje em dia é mais comum sentir o outro através do teclado, rato, écran e umas fotos acompanhadas de perfis esquizóides e enigmáticos que de nós nada revela; sentimos que temos centenas de amigos, que somos vistos por centenas de outras pessoas que nunca chegaremos conhecer, no fundo estamos enamorados por uma pseudo-imagem que criámos de nós mesmos e não pelo conhecer o outro(s); no fundo não queremos que nos conheçam verdadeiramente para não corrermos o risco dos outros verem o quão fútil, insípidos e perdidos nos sentimos nesta bolinha azul que nos acolhe.

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